
Duração: 5min26seg
Entrevista, edição e produção de Daniel Pinto Lopes
Maria Conceição, assistente de bordo na companhia aérea Emirates Airlines, acaba de ser distinguida com o Prémio Mulher do Ano nos Emirados Árabes Unidos (EAU) pelo projecto de solidariedade junto de 600 crianças pobres do Bangladesh.
(mais pormenores na reportagem áudio)
Tudo começou quando teve de fazer uma escala de trabalho até à capital do Bangladesh, Daca. Aqui contactou com uma realidade que lhe deu estímulo para a obra que agora lhe valeu o prémio.
"Pediram-me para fazer um voo a Daca e fiquei muito chocada com a pobreza extrema que vi lá. Era o contraste daquilo que estava a habituada a ver como hospedeira de bordo [hotéis de quatro estrelas] e, por isso, decidi estender a minha mão e ajudar os pobres", conta Maria Conceição ao Expressões Lusitanas.
A partir daqui, Maria Conceição criou o "The Dacka Project", porque não conseguia virar as costas àquilo que viu na capital do Bangladesh.
O "The Dacka Project" é uma obra de solidariedade que permite tirar as crianças e as respectivas famílias da rua para uma casa com melhores condições. Este projecto dá educação, cuidados de saúde, alimentação, roupa e apoio comunitário a cerca de 600 crianças pobres de Daca, ou seja, aquilo de que precisam para o dia-a-dia.
A maior parte dos donativos para o "The Dacka Project" vem essencialmente do Dubai, mas também há portugueses que dão donativos e participam no projecto.
"Não só dão donativos, como alguns se voluntariam durante os dias de folga ou nas férias de Verão. Este ano já tivemos uns quatro ou seis voluntários e, neste momento, temos dois portugueses a fazer voluntariado no projecto em Daca", explica Maria Conceição.
O Bangladesh é o oitavo país mais populoso do mundo. Para se ter uma ideia da pobreza, nos arredores da capital Daca meio milhão de pessoas vive diariamente com menos de um euro por dia.
De acordo com a Unicef, o Bangladesh apresenta uma das maiores taxas de desnutrição do planeta.
Maria Conceição sabe que não pode mudar o mundo, mas tenta, pelo menos, mudar o mundo das 600 crianças que o "The Dacka Project" tem a cargo.
Desde o final do ano passado, Maria não gere directamente o "The Dacka Project". Decidiu entregar o projecto a uma organização local, mas sempre com a supervisão da portuguesa.
O objectivo de entregar a gestão do projecto para mãos locais serve para que este “possa continuar no futuro” e para que haja uma” transmissão de geração em geração”.
“Catalyst” é agora o novo projecto de Maria Conceição, que se concentra essencialmente nos adultos. Maria tem a noção de que para se ajudar as crianças é preciso ajudar os pais. O “Catalyst” permite que os pais possam aprender inglês e já apresenta bons resultados.
“Enviámos um Curriculum Vitae para uma agência de turismo que precisava de uma pessoa para um cargo e empregou o rapaz, que já vem em Janeiro”, disse Maria Conceição, que confessa que este caso representa uma “felicidade”, sinal de que é “possível quebrar o ciclo de pobreza”.
Maria critica o governo do Bangladesh por criar entraves ao trabalho desenvolvido. Ao Expressões Lusitanas, Maria conta que, apesar de trabalhar naquele país há quase cinco anos, ainda tem dificuldades em obter o visto.
Relata ainda que para conseguir um visto tem de apanhar um avião para Paris para entrar em contacto com a embaixada do Bangladesh na capital francesa.
Maria desabafa que, para o governo do Bangladesh, a pobreza não é vista como uma prioridade.
"Eles já estão habituados à pobreza e se aumentarmos a qualidade de vida dos pobres, isso significa que a qualidade de vida deles diminui", remata.
Para o futuro, Maria Conceição já tem ideias e projectos. Gostava de ter a oportunidade de abrir um projecto de solidariedade no Brasil para tomar conta das crianças das favelas.
No ano passado foi distinguida com o Prémio Mulher Inovação da União Europeia. Agora ganha o reconhecimento nos Emirados Árabes Unidos (EAU), ao ser distinguida pela revista “Emirates Woman” com o Prémio Mulher do Ano.
Maria diz que faz aquilo que faz por "paixão" e "não para receber prémios". Estes, os prémios, são importantes para reunir patrocinadores e apoiantes desta causa.
Daniel Pinto Lopes