Sábado, 5 de Dezembro de 2009

 

REPORTAGEM ÁUDIO:

Duração: 06min16seg

Entrevista, edição e produção de Daniel Pinto Lopes

 

A jovem estudante universitária palestiana Arin Awad Ahmed pretendia fazer-se explodir numa cidade israelita a sul de Tel Aviv, mas, no último instante, recuou da sua intenção. O caso foi apresentado ao público pelo correspondente português Henrique Cymerman.
 
Daniel Pinto Lopes
 
Arin Ahmed carregava numa mala 30 quilos de explosivos e pregos e estava destinada a morrer pela nação, mas, num instante, tudo mudou. O olhar da jovem palestinana de 28 anos cruzou-se com um bebé israelita, que lhe sorriu, no local onde pretendia fazer-se explodir.
 
Naquela fracção de segundo, Arin deu um passo atrás e decidiu não levar avante a missão de se tornar num mártir.
 
Este caso impressionante da realidade do conflito israelo-árabe foi trazido ao público pelo jornalista e correspondente português no Médio Oriente. Henrique Cymerman refere que está há algum tempo a investigar temas relacionados com o terrorismo e com esta realidade em particular, bem como pessoas relacionadas com o tema, não apenas no campo académico ou nos serviços de informação, mas os próprios protagonistas.
 
 
"Consegui entrar dentro das prisões onde encontrei jovens que tinham sido capturados antes de se explodirem. Estive com outros protagonistas, com parentes de pessoas que fizeram atentados suicidas e, neste sentido, comecei a investigar o tema das mulheres, que é uma coisa nova. Foi precisa uma licença especial dos xeques [as autoridades espirituais] para permitir que mulheres participassem neste tipo de luta", explica Henrique Cymerman ao Expressões Lusitanas.
 
O correspondente português no Médio Oriente começou a investigar mulheres, tanto na prisão, como mulheres que já tinham saído da prisão. E foi neste sentido que encontrou Arin Ahmed.
 
 
 
"Era o único caso na História: uma mulher que chegou ao local do atentado com 30 quilos de explosivos, que já estava praticamente do outro lado e que, no último segundo, decidiu dar o passo atrás. Achei isto extraordinário e, posteriormente, gostei da sua visão de se transformar numa activista a favor da paz", sublinha.
 
Henrique Cymerman pensou, desta forma, que seria interessante mostrar no Ocidente o que é esta realidade.
 
O repórter português refere ainda que sempre que se fala em atentados suicidas, "nunca se vêm as caras e as pessoas que estão por detrás e quais os motivos que as levam a tomar esta decisão". No caso específico de Arin, qual o motivo que a levou a parar a bomba que transportava.
 
Para Henrique Cymerman, Arin Ahmed é uma mulher com uma integridade própria, superior à média, e que precisa de ter uma personalidade muito forte para parar o processo naquele momento.
 
"Era tal o apoio social, a gente que a rodeava, os mitos que se desenvolvem à volta do paraíso, uma espécie de casamento com Alá e, no último momento, por uma razão ou por outra, conseguir parar e confrontar-se com as pessoas que a trouxeram é precisa muita tenacidade, muita presença e força. Ela não sabia se, ao regressar, a iam deixar viva", detalha.
 
Com este caso, Henrique Cymerman acredita que se está a falar de uma "tendência" no sentido de se "compreender que os atentados suicidas não são a melhor via para conseguir objectivos políticos".
 
 
 
 Na conferência que teve lugar esta quinta-feira, 3 de Dezembro, no ISCTE, em Lisboa, Henrique Cymerman aproveitou para criticar os meios de comunicação social, sobretudo os ocidentais, por "apenas estarem presentes onde há sangue e mortos".
 
O facto de, diz Cymerman, viver no seio de toda aquela realidade permite-lhe apresentar um outro olhar e uma outra perspectiva, alheando-se assim da "visão ocidental", "contando o lado positivo e não apenas as sombras".
 
Cymerman é correspondente internacional no Médio Oriente e vive no sul de Tel Aviv, Israel, ao lado de um bairro árabe, que é parte de Tel Aviv, chamado Yafo.
 
"A minha vida é totalmente diferente daquilo que muitas pessoas imaginam. Todos os dias de manhã muito cedo vou para a praia de bicicleta com a minha mulher, tomo um banho, saio e parto para as minhas loucuras e missões. Cada dia é um dia diferente e cada vez mais há reportagens diferentes. Onde eu vivo há uma vida cultural extraordinária, visto que Tel Aviv é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo", sintetiza.
 
Henrique Cymerman tem três filhos, a quem dedica "uma parte importante do tempo", tem "uma série de 'hobbies'" e classifica a sua vida como "extremamente interessante e não tem nada a ver só com o conflito."


publicado por Expressões Lusitanas às 23:39 | link do post | comentar