Terça-feira, 8 de Junho de 2010

 

 

VOCALISTA DOS UHF CUMPRIMENTA OS LEITORES DO EXPRESSÕES LUSITANAS:


 

Os UHF estão de volta. ‘Porquê?’ é o título do novo disco da banda que conta com mais de 30 anos de carreira. É a pergunta que todos fazemos desde que “se começa a falar” até se “fechar os olhos no fim da vida”. A visão actual que os UHF têm do país e do sistema que “muitas vezes suportamos” - “um capitalismo desenfreado” - vai estar patente na escrita das letras que compõem ‘Porquê?’. Um álbum de “riscos” e “arrojado” em termos musicais e de produção. A “calma” do Alentejo proporcionou “desafios” às origens musicais dos UHF. Não se trata de um trabalho de “continuidade”. Um grupo com a carreira dos UHF tem de criar “energias” para que um disco “não seja a continuação de outro”. Depois do “sucesso” ‘Matas-me Com O Teu Olhar’, “o que é que vai ser o sucesso” deste novo disco? “Temos que viver com essa espada sobre nós. É algo que faz parte da vida musical”. O novo registo discográfico dos UHF vai ser editado em finais deste mês de Junho.

 

Expressões Lusitanas: Cinco anos depois do último trabalho – ‘Há Rock No Cais’ -, os UHF lançam agora um novo álbum intitulado “Porquê?”. Sentiam necessidade de lançar mais um disco?

António Manuel Ribeiro: A necessidade faz parte do trabalho e do sentir do músico. Nos últimos quatro anos fizemos sobretudo colectâneas, algumas delas com canções inéditas que fomos buscar aos nossos arquivos. Parámos! Contudo, há sempre aquela necessidade de escrever canções novas. Tinha chegado a idade madura para lançarmos o novo disco.

 

Expressões Lusitanas: Foi também um período de reflexão?

António Manuel Ribeiro: (pausa prolongada) Não sei se foi de reflexão… Foi mais de vivência. Tocámos muito ao vivo e chegámos, inclusive, a não ter férias, o que, curiosamente, não é nada bom para refrescar a cabeça. Fizemos aquele que é o trabalho brutal de estrada (muitos quilómetros, viagens, hotéis) e tudo isso sistematiza as coisas e cria rotinas, que comprimem o artista. É preciso parar! Precisei de uma pausa para escrever e compor.

 

Expressões Lusitanas: Toda essa rotina e vivência estão presentes neste novo disco? Ou, pelo contrário, tentaram quebrar a rotina e experimentar coisas novas?

António Manuel Ribeiro: Este é um disco de riscos. Não diria tanto na questão filosófica da palavra, porque a essência e o contexto dos UHF estão lá, tal como as canções de amor e uma visão social e política deste momento que atravessamos. Enquanto artista e compositor das canções não me separo da visão que tenho do país e transportei-a para algumas canções. Em termos musicais e de produção, penso que criámos um disco muito arrojado.

 

Expressões Lusitanas: Em que sentido?

António Manuel Ribeiro: Saímos do nosso campo normal. Fizemos experiências musicais em estúdio. Estamos a gravar no Alentejo e recebemos a calma que esta região proporciona, o que nos permitiu avançar para desafios às nossas próprias origens musicais.

 

Expressões Lusitanas: Qual é o significado do título do disco “Porquê?”?

António Manuel Ribeiro: (pausa) É aquela pergunta que fazes desde que começas a falar até que fechas os olhos no fim da vida. Nós (a maioria) fomos vítimas de um sistema que muitas vezes suportamos, uma espécie de capitalismo desenfreado e liberal que tudo permite, através da especulação. Não afundou a humanidade, para já, mas afundou muitas pessoas. Acho que, neste momento, muita gente faz esta pergunta: Porquê?

 

Expressões Lusitanas: Os UHF também se questionaram durante a fase de rotina de que falou há pouco? Estará o título relacionado com isto?

António Manuel Ribeiro: Por acaso, não. O título aparece depois. O disco já estava praticamente gravado quando, finalmente, o título apareceu. Era para ter outro nome…

 

Expressões Lusitanas: Qual era, já agora?

António Manuel Ribeiro: Deixemos isso para o nosso baú de ideias. O título final é aquele que mais significa neste momento que atravessamos.

 

Expressões Lusitanas: O disco inclui 11 temas. Qual é a tónica dominante na sonoridade e na escrita das letras? Há alguma diferença, flutuações ou persiste a linha dominante dos registos anteriores?

António Manuel Ribeiro: Está lá o nosso som, naturalmente. Porém, existe a experimentação aplicada em estúdio que há pouco referi. Não é um disco de continuidade. Revela a grande coerência e cumplicidade que existe na banda, algo que se ganha ao vivo. Está a reflectir a maturidade do grupo. Não falo em qualidade, porque é subjectiva. Criámos uma regra: foram escritas cerca de 35 canções, algumas delas ensaiadas, 17 foram gravadas e apenas 11 vão estar presentes no disco.

 

Expressões Lusitanas: É um álbum especial para os UHF? Marca o regresso em força da banda?

António Manuel Ribeiro: É fundamental que um grupo com a carreira dos UHF crie energias para que um disco não seja a continuação de outro. Este álbum reflecte o momento artístico do grupo. É o culminar destes anos de trabalho.

 

Expressões Lusitanas: Dos 11 temas que compõem este trabalho discográfico, nove são originais, compostos pelo próprio António Manuel Ribeiro, e dois são versões dos temas “Vejam Bem”, de José Afonso, e de “O Vento Mudou”, interpretado por Eduardo Nascimento no Festival da Canção. Porquê a escolha destas duas músicas em particular?

António Manuel Ribeiro: Epá, não sei… (pausa)

 

Expressões Lusitanas: Foi algo que lhe surgiu no momento? São canções que têm algum significado para si?

António Manuel Ribeiro: Às vezes gosto de agarrar na guitarra e tocar uma ou outra canções que me dizem algo. O José Afonso foi diferente. Tratou-se de um convite feito por Júlio Isidro no ano passado para se comemorar o 25 de Abril. A RTP convidou vários compositores, autores, músicos, artistas, entre outros, para fazerem versões de temas da revolução. Nisto, o Júlio falou-nos do “Vejam Bem”. Fizemos uma versão espectacular e teve uma reacção muito boa. Começámos a tocá-la e tínhamos de a incluir no disco.

 

Expressões Lusitanas: E em relação a “O Vento Mudou”, celebrizada por Eduardo Nascimento?

António Manuel Ribeiro: São daquelas coisas que se dá de manhã. Acordei com uma ideia, fui ao ‘YouTube’ ouvir o Eduardo Nascimento, agarrei na guitarra e fiz aquela versão. Quando a banda chegou à tarde, mostrei-lhes a versão… Sei lá… Nem é uma canção que eu oiça…

 

Expressões Lusitanas: São coisas que surgem de um momento para o outro.

António Manuel Ribeiro: Não sei explicar… Foi acordar com um sonho e com uma ideia e concretizá-la.

 

Expressões Lusitanas: Os UHF têm mais de 30 anos de carreira. Ainda vêem muito caminho pela frente?

António Manuel Ribeiro: Não sei se é muito. Teremos enquanto isto valer a pena para nós, houver desafios e sentirmos o apoio das pessoas. Sou muito pouco dado a sentimentalismos e, sobretudo, ao arrastar das coisas.

 

Entrevista e edição: Daniel Pinto Lopes (Expressões Lusitanas)



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