Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

 

A escritora e jornalista Isabel Stilwell lançou recentemente “D. Amélia”, o seu terceiro romance histórico, estilo literário de que gosta “bastante”. Confessa que tudo o que sabe sobre as histórias de Inglaterra e de França deve-se à leitura deste tipo de livros. Por ter uma “longa experiência” nesta ‘literatura’, Isabel Stilwell diz saber distinguir um bom romance histórico e descreve quais as condições necessárias para tal. O lançamento de “D. Amélia” surge no contexto da comemoração do centenário da República, facto histórico que afirma ser importante conhecer os motivos que o desencadearam. Sublinha que tinha a ideia do Regicídio “como uma coisa caída aos trambolhões, sem perceber o que aconteceu”. Já sobre a República, destaca que conhecia apenas os factos que aprendeu na escola. Descreve a rainha D. Amélia enquanto uma pessoa “meiga”, “doce”, “contida” e tendo uma educação “muito rigorosa”. Apesar disso, Isabel Stilwell refere que a rainha via o poder como um “serviço”, “repleto de deveres para com o povo”. Realça que ficou “surpreendida” com quase todos os aspectos da vida da rainha, “acusada” de ser “de direita”, “jacobina e de esquerda” ou “lésbica”.


Expressões Lusitanas: Depois de ter escrito dois livros – um sobre Filipa de Lencastre e o outro sobre Catarina de Bragança -, a Isabel debruça-se agora sobre Dona Amélia. Tem um particular gosto pelos romances históricos?

Isabel Stilwell: Sim, gosto bastante. Comecei a lê-los com cerca de 11 anos de idade. Tudo o que sei sobre as histórias de Inglaterra e de França deve-se aos romances históricos. Enquanto leitora de longa data de romances históricos, sei distinguir os bons dos maus.

 

Expressões Lusitanas: Defina-me um bom romance histórico.

Isabel Stilwell: São aqueles em que os personagens estão insuflados de vida, permitindo-me ficar agarrada à história e querer saber mais sobre uma pessoa e época. Os romances históricos são uma forma fantástica de conhecer o passado, mas têm de ser rigorosos, ou seja, tenho de confiar no escritor, capaz de me dar uma realidade. Pode ficcionar sobre a realidade, mas quando chego ao fim do livro tenho de sentir que aquilo que aprendi é verdadeiro. Se me fala de uma guerra, de um tratado, de um casamento ou de uma aliança política, tenho de saber que aquilo é real.

 

Expressões Lusitanas: Porque decidiu escrever sobre a rainha Dona Amélia?

Isabel Stilwell: Fazia todo o sentido falar sobre a última rainha de Portugal, tendo em conta que se celebrou cem anos da sua partida para o exílio, no ano em que também se celebra a República.

 

Expressões Lusitanas: Editou este livro já a pensar na comemoração do centenário da República?

Isabel Stilwell: Sim, porque é importante saber o que aconteceu antes da Implantação da República. Eu própria tinha a ideia do Regicídio como uma coisa caída aos trambolhões, sem perceber o que aconteceu. Sobre a República sabia o que aprendemos na escola e pouco mais. Não percebia bem qual era a ligação e o porquê de ter surgido. Acho que faz sentido perceber a Monarquia antes da República, para não cairmos na ideia de que estamos a celebrar uma coisa caída do céu.

 

Expressões Lusitanas: Falando sobre a rainha Dona Amélia, quais eram os seus principais traços de personalidade?

Isabel Stilwell: Em todos os livros há uma parte que me dá muito gozo: encontrar a personagem muito antes de ter sido importante e conhecida. No caso de Dona Amélia é recuar à sua infância e adolescência e ao respectivo contexto, porque isso forma aquilo que as pessoas são. Os primeiros anos são determinantes na vida das pessoas. Quando Dona Amélia chegou a Portugal com 20 anos, já tinha uma personalidade muito definida – uma pessoas determinada e encarava o poder como um serviço, repleto de deveres para com o povo. Era alguém que intervinha e que, dentro das suas possibilidades, tentava mudar as condições de vida dos portugueses. Era meiga, doce e com uma educação muito rigorosa. Não manifestava muito as suas emoções.

 

Expressões Lusitanas: Era uma pessoa com fortes convicções?

Isabel Stilwell: Sim, dizia aquilo que pensava. Não dissimulava, nem escondia.

 

Expressões Lusitanas: A vida de Dona Amélia foi marcada por várias angústias, como o Regicídio, o exílio, as traições do marido e um certo ambiente anti-monárquico vivido na altura. Acha que ela foi injustiçada?

Isabel Stilwell: Foi, porque acusavam-na de ser jacobina e de esquerda, de direita, lésbica, fria ou ser estrangeira. Ela não tinha escape. Tudo isto tinha pouco a ver com o que ela, de facto, era. É fácil manipular e nunca imaginei a liberdade de expressão e a força que a imprensa tinha na altura.

 

Expressões Lusitanas: O seu livro pode ser visto como uma obra biográfica ou como uma ficção histórica?

Isabel Stilwell: É um romance histórico, porque há lacunas e partes de cartas e de diários que são ficcionadas. Tenho uma grande atenção para que tudo seja verosímil. Acredito que a minha Dona Amélia é muito próxima do que foi a rainha, mas, por uma questão de seriedade, é preciso dizer que há alguma distância.

 

Expressões Lusitanas: Como decorreu a fase de recolha de documentos e elementos históricos para ter uma base sólida na escrita do seu livro? Teve a tarefa facilitada ou foi difícil de conseguir obter determinado tipo de documentação?

Isabel Stilwell: Comparativamente com, por exemplo, a Dona Filipa de Lencastre, que viveu há 700 anos atrás, há muito mais informação e documentos sobre a rainha Dona Amélia, apesar de pertencer a uma época em que há duas imagens distintas: os monárquicos preservaram uma imagem pro-monarquia e os republicanos desfizeram-na e guardaram a parte (má) que lhes convinha. Por isso, não é tão simples separar as águas. Urge olhar para uns e para outros, comparar e perceber o que têm ou não em comum.

 

Expressões Lusitanas: Há alguma personagem no seu livro que não seja real?

Isabel Stilwell: A empregada e criada de quarto da rainha, de seu nome Ana, que serviu ali como passagem. Contudo, o livro apresenta no final uma bibliografia e um “dramatis personae’, ou seja, é a história verdadeira, uma espécie de resumo que refere quando é que as pessoas reinaram, governaram ou chefiaram. No fundo, trata-se de ajudar o leitor a distinguir a ficção da realidade.

 

Expressões Lusitanas: Daquilo que pesquisou, ficou surpreendida com alguma coisa?

Isabel Stilwell: Fiquei surpreendida com quase tudo. Tinha uma ideia bastante cristalizada da Dona Amélia no momento do Regicídio, em que ela estava de pé, com as flores, a bater. Agora consegui perceber este momento histórico e as confusões enormes desencadeadas pelos partidos. Diria que uma das grandes surpresas foi a relação de Dona Amélia com o seu clã muito próximo (tios e avós), com o seu irmão e a afinidade muito próxima para com os seus filhos, algo que considerava ser inesperado na época.

 

Expressões Lusitanas: Qual é o feito ou a acção que destaca da vida de Dona Amélia?

Isabel Stilwell: O feito que sublinho é sua obra social, que não se manifesta numa perspectiva de caridade avulsa, mas de construção. Ela foi responsável pela luta anti-tuberculose, que, por motivos alheios, não teve repercussão em Portugal. Nunca se conformou à ideia de uma classe trabalhadora sem direitos e sem condições de vida. Já em termos mais pessoais destaco o grande investimento feito na educação dos filhos, nomeadamente no mais velho.

 

Expressões Lusitanas: Os três romances históricos por si publicados são apenas sobre figuras femininas. Por alguma razão específica?

Isabel Stilwell: A Dona Filipa surgiu por impulso numa reunião da editora, em que me perguntaram sobre quem escrevia num possível romance e, assim, surgiu o nome dela. Contudo, mais tarde, percebi que era a única escolha lógica. Era uma rainha suficientemente conhecida e foi alguém muito presente nas conversas em minha casa, visto que os meus pais são ingleses. Dona Filipa foi a única rainha inglesa que Portugal teve e, sendo eu filha de pais ingleses, a escolha era evidente. Já no lançamento deste primeiro livro, o bispo do Porto D. Manuel Clemente disse-me que, tendo eu escrito sobre Dona Filipa, tinha de redigir um livro sobre a única rainha portuguesa que Inglaterra teve – Catarina de Bragança.

 

Entrevista: Daniel Pinto Lopes (Jornalista)



publicado por Expressões Lusitanas às 15:08 | link do post | comentar