Sábado, 9 de Outubro de 2010

Dj Guze (esquerda) e Poeta de Rua (direita)

 

Daniel Pinto Lopes

Jornalista

 

O nome Poeta de Rua não é conhecido de todos. Desde cedo, em Amarante, Gustavo Carvalho começou a produzir e a escrever o que “sente”. As letras espelham o seu olhar pelo mundo e pelas experiências de vida. Poeta de Rua é explicado neste contexto. “Retratos” é o título do segundo e novo disco e confessa que se trata de uma espécie de diário. Escreve “praticamente” todos os dias sobre aquilo que “vê” e “sente”. A nível musical, assume ter “várias influências” de distintos géneros musicais, apesar de o ‘hip-hop’ ser a sua forma de estar na música. “Somos uma família”, diz.

 

Expressões Lusitanas: Antes de mais, porquê Poeta de Rua como nome artístico?

Poeta de Rua: Poeta está relacionado com a escrita de poesia. Da Rua é uma metáfora, porque encaro a vida como uma rua em que vamos construindo passo a passo

 

Expressões Lusitanas: A rua é a sua visão do mundo e da vida?

Poeta de Rua: Sim, apesar de haver muita gente que confunde a palavra Rua com a cena “street” (rua) do ‘rap’.

 

Expressões Lusitanas: Este seu olhar da rua (a vida e o mundo) é transferido para as letras?

Poeta de Rua: Sim e é uma constante evolução. Nunca me arrependo daquilo que escrevo, porque tenho a obrigação de escrever só aquilo que sinto e as ilações que tiro da vida. Há pessoas que hoje escrevem coisas e daqui a 10 ou 15 anos vão arrepender-se. Eu não.

 

Expressões Lusitanas: O seu segundo e novo álbum intitula-se “Retratos”. Do quê ou de quem?

Poeta de Rua: O próprio nome surge pela forma como vejo cada música do disco. Não é uma música por ser. Todos os temas têm um sentido e significado e consigo explicar letra a letra e verso a verso. Cada música é um retrato. É como se pudesse fotografar o sentimento.

 

Expressões Lusitanas: Qual é a temática principal destes “Retratos”?

Poeta de Rua: É a minha experiência de vida desde que me lembro até os meus 23 anos, a idade que hoje tenho.

 

Expressões Lusitanas: Fala sobre questões políticas, sociais ou morais? O ‘rap’ é uma música de intervenção.

Poeta de Rua: Sim, é. Neste disco falo essencialmente como essas políticas se cruzam na minha vida e até os obstáculos que algumas delas me criam. Por outro lado, e tendo como exemplo o tema “Linhas”, retrato várias linhas que tenho na minha vida e pontos de interferência e de intersecção. Desde que te conheci nesta entrevista, ambos interagimos e aquilo que me podes dar é uma experiência construtiva, seja ela positiva ou negativa.

 

Expressões Lusitanas: Pode-se concluir que estes “Retratos” são uma espécie de diário?

Poeta de Rua: Sim, é mesmo isso.

 

Expressões Lusitanas: Ao ouvir o seu disco estou a ler um diário?

Poeta de Rua: Exactamente. Até te digo mais: eu escrevo praticamente todos os dias.

 

Expressões Lusitanas: Já escreveu alguma coisa hoje?

Poeta de Rua: Sim.

 

Expressões Lusitanas: Sobre o quê, se não for indiscrição?

Poeta de Rua: Epá, hoje escrevi sobre uma cena meio ridícula. Ontem estive a jogar póquer, que é um jogo cheio de acção e reacção psicológicas. Vi, por exemplo, a forma como pessoas, que são íntimas e amigas há muitos anos, discutem coisas, como, por exemplo, uma regra mal interpretada. Ao mesmo tempo, duas pessoas presentes na mesa, sem tanta intimidade, discutem a mesma coisa. Procuro saber o ponto de violência entre as duas. Escrevi sobre coisas que vi e senti.

 

Expressões Lusitanas: Quais são as suas principais influências, em termos de estilos musicais e de nomes de artistas ou grupos?

Poeta de Rua: Cresci no seio de uma família de músicos e fui envolvido em diversos géneros musicais. O meu pai era Dj, o meu tio tocava música clássica e o meu avô era instrumentista. Não tenho um estilo musical definido.

 

Expressões Lusitanas: Mas o ‘hip-hop’ é sua forma de estar na música.

Poeta de Rua: Foi o estilo que assumi, pela forma como rimo e canto. Identifico-me bastante com a cultura do ‘hip-hop’. Os produtores e ‘rappers’ portugueses, e não só, são uma família.

 

Expressões Lusitanas: Qual é o seu MC (artista ou cantor de ‘hip-hop’ que, normalmente, compõe e interpreta as suas letras) de eleição?

Poeta de Rua: O meu grande ícone é o norte-americano Common.

 

Expressões Lusitanas: E em Portugal?

Poeta de Rua: Epá, é tão difícil! São tantos! (pausa) Todos os membros dos Dealema, o Berna e o Né do projecto “Barrako 27”. A nível de produção, o Dj Guze, Activa-som, entre outros.

 

Expressões Lusitanas: São todos do ‘underground’ do ‘rap’.

Poeta de Rua: Sim. Dos mais conhecidos admiro bastante o Sam The Kid, quer na produção, quer na forma como escreve, e o LCR. Sei lá! Nunca mais acabava…

 

Expressões Lusitanas: Os temas incluídos neste novo trabalho são originais?

Poeta de Rua: Sim, as letras foram por mim escritas e compostas, à excepção da música “Linhas”.

 

Expressões Lusitanas: O nome verdadeiro do Poeta de Rua é Gustavo Carvalho e vive em Amarante. Vai continuar por lá ou Lisboa é o próximo destino?

Poeta de Rua: Mais dois meses e vou morar para Lisboa.

 

Expressões Lusitanas: O ‘hip-hop’ não vinga no Norte, mais concretamente no Porto?

Poeta de Rua: Pelo contrário. Lá em cima temos um movimento de ‘hip-hop’ muito forte, repleto de boas energias e com muito bom conteúdo. Venho morar para Lisboa, porque vou ingressar num curso de Engenharia de Som.

 

Expressões Lusitanas: Para o futuro, a música passa pelos seus planos, tanto na interpretação como na produção?

Poeta de Rua: Claro que sim! Até porque já trabalho num estúdio, em Amarante. Faço trabalhos com praticamente toda a gente. Tenho clientes de Norte a Sul, desde o Minho até ao Algarve.



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