Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

 

Tiago Tejo sempre teve interesse pelo azulejo. Há cerca de um ano, “não tendo nada para fazer” e antes de ingressar no curso de História da Arte, tinha de encontrar alguma coisa para se “entreter”. Os requisitos eram ser algo na arte e ter um cariz português. Daí nasceu o pixelejo. Apesar de saber da ilegalidade, Tiago cola a sua arte pelas ruas de Lisboa.

 

Daniel Pinto Lopes

Jornalista

 

Viajou pela Europa no inter-rail durante dois meses. Regressado a Portugal, e antes de ingressar na faculdade, enviou currículos. "Como é habitual, ninguém respondeu”. Face a esta situação, Tiago tinha de encontrar “alguma coisa” para se “entreter”. “Tinha de ser algo na arte e ter um cariz português”, explica ao Expressões Lusitanas.

 

Na altura estava a investigar a arte urbana e do pixel e percebeu que tanto o azulejo e o pixel eram “coisas idênticas”, sem haver, contudo, uma “relação de causa e efeito”. “Um ecrã de computador dos anos 70 é uma padrão de quadradinhos, vá de azulejos”, refere Tiago Tejo.

 

Do virtual para a rua foi o seguinte passo. “Tinha a necessidade de mostrar e, nesse sentido, comecei a colar o pixelejo na rua”, afirma.

 

O desenho de um pixelejo leva uma noite, “dependendo do padrão”, adverte Tiago Tejo. Tal exige “alguma noção” de geometria e “muito livro folheado” sobre exemplos de azulejos verdadeiros afixados na rua.

 

Para estar inspirado na hora de desenhar um pixelejo basta apenas um “elemento chave”: “estar atento a tudo o que é padrão e pixel”. E dá um exemplo. “Quem atravessa os jardins da Avenida da Liberdade raramente repara na beleza do padrão da calçada. Vê-se que houve ali alguém com cérebro a trabalhar naquilo”, sublinha.

 

Contudo, não há um método “muito definido” no desenho de um pixelo. Diz que tanto se pode inspirar no original, num elemento daqui e dacolá ou num tapete de Arraiolos. Depois “mistura tudo”.

 

Recorda que já colou pixelejo ao lado de um painel de azulejos verdadeiro de um prédio antigo e mal estimado para “chocar” e “chamar a atenção”, Por outro lado, “pode acontecer o facto de não ter na mochila”, que leva quando vai colar, “o padrão afixado na parede”.

 

Todavia, Tiago Tejo prefere outros locais. “Pego na coisa mais feia das cidades, como as hediondas caixas de electricidade, e colo o pixelejo”.

 

As colagens são feitas durante a noite. Sabe que é ilegal e que viola o artigo 212 do Código Penal. Até hoje não teve nenhum susto, mas já tiveram lugar acontecimentos “inesperados”.

 

“Uma vez estava colar e no segundo em que acabo e pego nas coisas viro numa esquina e estava a polícia. Há sempre um nó na garganta: e se tivesse demorado mais um segundo”, conta.

 

Apesar de estar consciente dos riscos, não é coisa que o “apoquente”. “Sei da ilegalidade e da carga de chatices e de trabalhos se for apanhado”. “Vale a pena”, diz, convicto.

 

Alguns dos seus pixelejo ainda podem ser vistos em Lisboa, como na Avenida de Berna. Já os teve colados na Avenida da República, mas foram limpos “numa questão de dias”. “Quanto mais movimentada é zona, menos tempo estão lá”, assevera.

 

Actualmente está a estudar História da Arte. Não vive do pixelejo. “Entretenho-me e, pelo menos, tenho constantemente a massa cinzenta a trabalhar”. Porém, garante ter em cima da mesa uma ou outra proposta de trabalho. “Se vir que se trata de um processo mecânico e não há um diálogo artístico, não vou à bola só por isso”, previne.



publicado por Expressões Lusitanas às 18:44 | link do post | comentar