Terça-feira, 15.03.11

 

Tem 23 anos e estreia-se no mundo da música com o disco “The Cherry On My Cake”, um título curioso com uma explicação peculiar. “A minha mãe teve um sonho e viu o meu álbum à sua frente e chamava-se ‘the cherry on my cake’, explica Luísa Sobral ao Expressões Lusitanas. Estudou música em Boston, nos Estados Unidos da América (EUA) e, mais tarde, esteve seis meses em Nova Iorque, durante os quais teve a oportunidade de cantar em alguns restaurantes. A sua vivência e a relação com as pessoas inspiraram-na no processo de composição do seu disco de estreia. Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Regina Spektor são as principais influências musicais em Luísa Sobral e estão representadas no seu álbum, de uma forma “inconsciente”. A sonoridade de “The Cherry On My Cake” é ‘jazz’. Mais concretamente, consiste numa “mistura da sonoridade” das melodias deste género musical nos anos 50 com sons de que gosta de ouvir agora, como a harpa, por exemplo. O álbum é composto por 13 canções, das quais dez são interpretadas em inglês. “Na altura vivia nos EUA e falava, sonhava, pensava e cantava sempre em inglês”, detalha. Para trás, há já sete anos, fica a participação no concurso televisivo da SIC – “Ídolos”.

 

 

Expressões Lusitanas: Antes de falarmos sobre o seu disco de estreia, abordemos o caminho que percorreu até chegar a este patamar. Durante quatro anos estudou no Berklee College of Music, em Boston, EUA. Como surgiu a oportunidade?

Luísa Sobral: A oportunidade foi a ficha de inscrição (risos). Sempre ouvi falar muito desta escola e inscrevi-me.

 

Expressões Lusitanas: Como classifica a experiência?

Luísa Sobral: É inexplicável, porque percebi quem era enquanto artista. Foram os quatro melhores anos da minha vida, pelo menos até agora.

 

Expressões Lusitanas: Era um curso geral de música ou tinha algumas disciplinas mais específicas?

Luísa Sobral: Escolhi o ‘Professional Music’, que permite desenhar o curso à nossa medida.

 

Expressões Lusitanas: Conseguiu contactos?

Luísa Sobral: Fiquei com os contactos de professores de que gosto muito e que conhecem pessoas importantes no mundo da música, mas não tive a necessidade de recorrer muito a isso.

 

Expressões Lusitanas: Posteriormente, esteve em Nova Iorque, Durante quanto tempo?

Luísa Sobral: Só seis meses.

 

Expressões Lusitanas: Esteve relacionado com a música?

Luísa Sobral: Sim, acabei o curso em Boston e decidi ir para Nova Iorque durante um ano, mas, entretanto, acabei por ter este convite [de gravar o disco] e regressei a Portugal. Porém, tive a oportunidade de lá cantar em alguns sítios.

 

Expressões Lusitanas: Onde? Em clubes de ‘jazz’?

Luísa Sobral: Estive mais em restaurantes e sítios similares, porque quando se começa é assim, mas permitiu conhecer pessoas.

 

Expressões Lusitanas: Foi a passagem pelos EUA uma fonte de inspiração para a composição do seu disco de estreia?

Luísa Sobral: Claro que sim. Vivi lá cerca de cinco anos. Tudo o que aconteceu, as pessoas que conheci e os amigos que fiz foram uma fonte de inspiração, tal como a música que lá ouvia e tocava. Nas aulas, cheguei a tocar música indiana e árabe, por exemplo.

 

Expressões Lusitanas: Para além do que referiu, houve mais algum elemento em que se inspirasse e baseasse?

Luísa Sobral: O que se passa nas nossas vidas inspira-nos. É a minha vivência, a relação com as pessoas. São várias coisas e é difícil de dizer o que é. Tudo o que acontece pode tornar-se numa inspiração, se nós o deixarmos.

 

Expressões Lusitanas: Quais são as suas principais influências musicais?

Luísa Sobral: Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Regina Spektor.

 

Expressões Lusitanas: Estão representadas no seu primeiro disco?

Luísa Sobral: Acho que sim. Repare, é como no Jornalismo. Se ler muito um autor, algumas coisas acabam por o influenciar de uma forma inconsciente. O mesmo se passa com a música e é por isso que tento não ouvir apenas uma só pessoa. Se ouvirmos várias coisas, seremos nós mesmos na nossa arte.

 

Expressões Lusitanas: A Luísa é cantora, compositora, letrista e instrumentista. É quatro em um, digamos assim?

Luísa Sobral: Sou o pacote completo (risos).

 

Expressões Lusitanas: À excepção de ‘Saiu Para a Rua’, de Carlos Tê e Rui Veloso, os restantes temas foram escritos pela Luísa. Qual é a tónica dominante na escrita das canções? Versam sobre algum tema em particular ou uma fala sobre uma coisa e outra já retrata outra?

Luísa Sobral: É um pouco isso. Tratam-se de histórias sobre pessoas e personagens imagináveis. Se calhar são influenciadas por pessoas que conheço. Há ainda algumas personagens, supostamente autobiográficas, nas quais começo as frases pela primeira pessoa do singular [eu] e não se referem a mim, mas a uma personagem que crio.

 

Expressões Lusitanas: Ou seja, as letras retratam um eu existencial e um eu sonhado?

Luísa Sobral: Sim. Por seu lado, o eu sonhado apresenta vários heterónimos. É como se eu fosse uma actriz e participasse em filmes diferentes.

 

Expressões Lusitanas: Como define a sonoridade do disco? Apenas ‘jazz’?

Luísa Sobral: Sim, mas com influências de sonoridades modernas não tão utilizadas no ‘jazz’ acústico dos anos 50.

 

Expressões Lusitanas: Em que sentido?

Luísa Sobral: É uma mistura da sonoridade das melodias dos anos 50 com sons de que gosto de ouvir agora, como a harpa, por exemplo.

 

Expressões Lusitanas: “The Cherry On My Cake” (“A cereja no topo do meu bolo”) é um título curioso. A que se deve?

Luísa Sobral: O tema ‘Don’t Let Me Down’ tem um verso que termina com “Without your cherry on my cake”. Não tinha dado muito importância, nem falei com ninguém. Enquanto estava à procura de um título para o disco, a minha mãe teve um sonho, no qual via o meu álbum à sua frente e chamava-se ‘cherry on my cake’! Nunca tínhamos falado desta frase. Acho piada a sonhos e a premonições e, portanto, decidi não ir contra o sonho, nunca se sabe o que pode acontecer (risos).

 

Expressões Lusitanas: O seu disco de estreia inclui 13 canções, das quais apenas três são interpretadas em português. Por alguma razão em especial?

Luísa Sobral: Foi uma coisa orgânica. Quando escrevi os dez temas em inglês vivia nos EUA e falava, sonhava, pensava e cantava sempre em inglês. Era a língua por mim mais utilizada.

 

Expressões Lusitanas: E porquê a inclusão do tema escrito por Carlos Tê e interpretado por Rui Veloso (‘Saiu Para a Rua’)?

Luísa Sobral: Oiço Rui Veloso desde pequenina e é um dos temas de que mais gosto. Identifico-me com a ideia do poema. Sei que é deprimente. Fala sobre uma relação em que os dois envolvidos vivem infelizes, mas a canção expõe esta situação de uma maneira muito poética e bonita.

 

Expressões Lusitanas: Há sete anos atrás participou no programa ‘Ídolos’. Vistas as coisas com alguma distância, a passagem pelo concurso enriqueceu-a?

Luísa Sobral: Talvez tenha enriquecido como pessoa.

 

Expressões Lusitanas: E a nível musical?

Luísa Sobral: Não trouxe nada de novo. Se formos a ver bem, a minha música (‘jazz’) não tem nada a ver com o cariz do programa (‘pop’). Na altura, não sabia nada de teoria musical e agora sei, porque estudei.

 

Expressões Lusitanas: Voltava a participar no programa novamente?

Luísa Sobral: Agora? Nunca mais.

 

Expressões Lusitanas: Mas o seu irmão Salvador, entretanto, participou.

Luísa Sobral: Foi por piada. Cantar é um ‘hobbie’ que ele tem.

 

Expressões Lusitanas: Na altura ele questionou-a se devia participar?

Luísa Sobral: Sim. Ele gosta de cantar, achava piada e, por isso, não via grande problema. Agora, se ele quisesse fazer carreira, teria dito para não ir.

 



publicado por Expressões Lusitanas às 15:59 | link do post | comentar