Sexta-feira, 12.02.10

 

A entrevista em ÁUDIO:

 
Daniel Pinto Lopes
 

A portuguesa Maria Conceição, que no ano passado foi galardoada com o título de Mulher do Ano nos Emirados Árabes Unidos pelo seu projecto de solidariedade no Bangladesh, esteve recentemente em Portugal para visitar a família, “conceder entrevistas” e promover por cá o “The Dacka Project”, que acolhe 600 crianças pobres da capital do Bangladesh, Daca.

 

O Expressões Lusitanas tinha anteriormente conversado com Maria Conceição no Dubai via telefone. Numa passagem curta por Portugal (“não se sabe quando posso cá voltar”), e enquanto Mulher do Ano, o Expressões Lusitanas volta novamente à conversa com Maria Conceição. Para já, os efeitos do prémio que recebeu em 2009 ainda são poucos, tendo “fé” que dê mais frutos. O reconhecimento no Bangladesh é “nenhum”, um país em que “a corrupção é superior à pobreza”, tendo Maria sido vítima deste flagelo.

 

Para muitos pais ver os filhos a aprender é ainda encarado como uma “perda de tempo”. O inglês é o passaporte privilegiado para uma vida e um emprego melhores. Maria conta que, até agora, já houve, pelo menos, quatro casos de sucesso de pais que quiseram sair do “ciclo de pobreza” para aprender e estudar.

 

Expressões Lusitanas: O prémio Mulher do Ano nos Emirados Árabes Unidos trouxe algo de novo à sua vida?

Maria Conceição: Aumentou a visibilidade, a responsabilidade e as expectativas das pessoas em relação ao projecto.

 

Expressões Lusitanas: Na última vez que conversámos, a Maria esperava conseguir arrecadar mais apoios para o projecto de solidariedade “The Dacka Project” com a atribuição deste prémio de reconhecimento. Ainda vê as coisas da mesma forma?

Maria Conceição: Temos fé e estamos à espera que dê mais frutos. Para já fomos convidados para muitas entrevistas de rádio e de televisão, mas, em termos financeiros, ainda é cedo para falar. Fomos convidados pela Universidade Católica de Lisboa e ficámos muito tocados e emocionados com a generosidade dos estudantes e dos professores, bem como da maneira como eles nos receberam. Ficámos contentes e esperamos que haja outras companhias, universidades, escolas e outros patrocínios no futuro.

 

Expressões Lusitanas: Depreendo que em Portugal tem algum reconhecimento. Lá fora, no Dubai e no Bangladesh, acontece o mesmo?

Maria Conceição: No Dubai já somos conhecidos desde 2007, onde se escreveram muitos artigos e houve muitos convites para a televisão. No Bangladesh não há reconhecimento.

 
Expressões Lusitanas: Nenhum até agora?
Maria Conceição: Nenhum.
 
Expressões Lusitanas: Por algum motivo em especial?

Maria Conceição: (longa pausa) É uma dessas coisas que a gente não consegue entender…

 

Expressões Lusitanas: Abordando outros temas, o “The Dacka Project” é, para quem ainda não conhece, responsável pela educação, cuidados de saúde, alimentação, roupa e apoio comunitário a cerca de 600 crianças pobres de Daca, a capital do Bangladesh. Face a uma realidade de pobreza extrema, a qual levou a Maria a criar este projecto, nunca teve vontade de desistir ou de baixar os braços?

Maria Conceição: As dificuldades que encontramos são diárias. Depois de trabalhar cinco anos e sempre a tentar a ultrapassar as dificuldade por vezes desanimo, mas as crianças dependem de nós e têm fé em nós e, por isso, não dá para desistir.

 
Expressões Lusitanas: E, por isso, continua…

Maria Conceição: Continuo a bater com a testa na parede. Sou muito teimosa! Contudo, tenho sorte em ter voluntários espectaculares em Portugal que me dão muito apoio moral, acendem umas velinhas por mim e ajudam-me imenso.

 

Expressões Lusitanas: Sei também que o governo do Bangladesh tem criado alguns entraves. Recorde-me de alguns?

Maria Conceição: Alguns entraves é uma frase muito pequena…
 
Expressões Lusitanas: Qual é, então, o adjectivo que utilizava?

Maria Conceição: São difíceis! Até hoje tenho dificuldades em obter um visto. Tenho ido para o Bangladesh com vistos turísticos. É impossível ter um visto que permite entrar no país por mais de 6 meses ou um ano. A alfândega também não ajuda. Temos muitas pessoas que nos dão roupa, sapatos, brinquedos, toalhas, sabonetes e produtos higiénicos e, infelizmente, o governo faz com que os produtos fiquem ‘empatados’ na alfândega. Porém, se a Maria der 1000 dólares é já hoje que temos acesso ao equipamento! Eu abri um projecto de solidariedade para ajudar as crianças e aumentar a qualidade de vida dos pais e não para encher os bolsos das pessoas que trabalham na alfândega e no governo. Se começo a dar 1000 dólares hoje, inicia-se um ciclo vicioso, em que depois já tenho que dar muito mais. Recuso-me a seguir este caminho.

 

Expressões Lusitanas: Pode-se concluir que o dinheiro é essencial neste “jogo”?

Maria Conceição: É! Infelizmente, no Bangladesh, há mais corrupção do que pobreza.

 

Expressões Lusitanas: Paralelamente, a Maria criou um novo projecto – o “Catalyst” –, que se concentra essencialmente nos pais das 600 crianças que estão a cargo do seu projecto de solidariedade. Tem a noção de que para se ajudar as crianças é preciso ajudar os pais?

Maria Conceição: Sim. No Bangladesh, a taxa de trabalho infantil é muito elevada e, então, estas crianças eram e são uma fonte de rendimento para os pais. Se colocarem estas crianças a estudar, os pais perdem esta fonte de rendimento. Com este novo projecto, que é irmão do “The Dacka Project”, estamos a tentar educar este pais e servir como espécie de centro de emprego. Estamos a contactar empresas para saber se têm vagas e ensinamos estes pais a trabalhar nestas empresas.

 
Expressões Lusitanas: Já teve algum caso de sucesso?

Maria Conceição: Quatro, no Dubai. A Emirates Airlines recrutou um senhor que não sabia ler e que nunca tinha ido à escola e hoje está a trabalhar nos escritórios da companhia aérea. Um hotel no Dubai empregou três pais (um trabalha na lavandaria e os outros dois fazem a limpeza dos quartos). Há ainda uma escola no Dubai que precisa de pessoas para tratar das crianças.

 

Expressões Lusitanas: Face a estes exemplos positivos, ainda há pais que não vêm com bons olhos que as crianças estejam ao abrigo do “The Dacka Project”?

Maria Conceição: Os pais pensam que o facto de as crianças irem à escola é uma perda de tempo. Estas pessoas viveram nos bairros de lata… É um ciclo: os pais, os avós, os bisavós viveram lá… Para eles não existe o amanhã. Não têm aquela ambição que tempos aqui na Europa em conseguir um trabalho melhor e bem pago. Não sonham!

 
Expressões Lusitanas: Com o “Catalyst”, o que é os pais aprendem?

Maria Conceição: De momento estamos a dar um curso muito intensivo de inglês, ensinamos como é que se deve agir numa entrevista, aprendem maneiras, higiene e informática. Se conseguirem falar inglês há melhores oportunidades de trabalho e salário.

 

Expressões Lusitanas: Para o futuro, a Maria Conceição tem ideias e projectos novos. Qual é o próximo passo?

Maria Conceição: Como hospedeira deparo-me com a existência de outras crianças no mundo que precisam de educação e de oportunidades de estudar, a fim de se quebrar o ciclo de pobreza. Vamos tentar levantar asas e abrir um orfanato no Brasil em 2010. Só estamos à espera de donativos e de voluntários para me ajudarem no terreno.

 

Expressões Lusitanas: A Maria é natural de Vila Franca de Xira. Já foi visitar a família?

Maria Conceição: Já fui ver a minha mãe…
 

Expressões Lusitanas: Não sente, por momentos, saudades de regressar a casa ou o “The Dacka Project” é o mais importante para si?

Maria Conceição: Eu sou uma “mãe” e, como tal, a coisa mais importante que existe são os nossos filhos. A mesma dedicação e devoção que têm para com os filhos, eu também tenho. O “The Dacka Project” é a coisa mais importante neste momento.



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Quarta-feira, 18.11.09

             

 

ÁUDIO da reportagem:

Duração: 5min35seg

Entrevista, edição e produção de Daniel Pinto Lopes

 

Maria Conceição, assistente de bordo na companhia aérea Emirates Airlines, acaba de ser distinguida com o Prémio Mulher do Ano nos Emirados Árabes Unidos (EAU) pelo projecto de solidariedade junto de 600 crianças pobres do Bangladesh.
 
Daniel Pinto Lopes
 
Tudo começou quando teve de fazer uma escala de trabalho até à capital do Bangladesh, Daca. Aqui contactou com uma realidade que lhe deu estímulo para a obra que agora lhe valeu o prémio.
 
"Pediram-me para fazer um voo a Daca e fiquei muito chocada com a pobreza extrema que vi lá. Era o contraste daquilo que estava a habituada a ver como hospedeira de bordo [hotéis de quatro estrelas] e, por isso, decidi estender a minha mão e ajudar os pobres", conta Maria Conceição ao Expressões Lusitanas.
 
A partir daqui, Maria Conceição criou o "The Dacka Project", porque não conseguia virar as costas àquilo que viu na capital do Bangladesh.
 
 O "The Dacka Project" é uma obra de solidariedade que permite tirar as crianças e as respectivas famílias da rua para uma casa com melhores condições. Este projecto dá educação, cuidados de saúde, alimentação, roupa e apoio comunitário a cerca de 600 crianças pobres de Daca, ou seja, aquilo de que precisam para o dia-a-dia.
 
A maior parte dos donativos para o "The Dacka Project" vem essencialmente do Dubai, mas também há portugueses que dão donativos e participam no projecto.
 
"Não só dão donativos, como alguns se voluntariam durante os dias de folga ou nas férias de Verão. Este ano já tivemos uns quatro ou seis voluntários e, neste momento, temos dois portugueses a fazer voluntariado no projecto em Daca", explica Maria Conceição.
 
O Bangladesh é o oitavo país mais populoso do mundo. Para se ter uma ideia da pobreza, nos arredores da capital Daca meio milhão de pessoas vive diariamente com menos de um euro por dia.
 
De acordo com a Unicef, o Bangladesh apresenta uma das maiores taxas de desnutrição do planeta.
 
Maria Conceição sabe que não pode mudar o mundo, mas tenta, pelo menos, mudar o mundo das 600 crianças que o "The Dacka Project" tem a cargo.
 
Desde o final do ano passado, Maria não gere directamente o "The Dacka Project". Decidiu entregar o projecto a uma organização local, mas sempre com a supervisão da portuguesa.
 
O objectivo de entregar a gestão do projecto para mãos locais serve para que este “possa continuar no futuro” e para que haja uma” transmissão de geração em geração”.
 
“Catalyst” é agora o novo projecto de Maria Conceição, que se concentra essencialmente nos adultos. Maria tem a noção de que para se ajudar as crianças é preciso ajudar os pais. O “Catalyst” permite que os pais possam aprender inglês e já apresenta bons resultados.
 
“Enviámos um Curriculum Vitae para uma agência de turismo que precisava de uma pessoa para um cargo e empregou o rapaz, que já vem em Janeiro”, disse Maria Conceição, que confessa que este caso representa uma “felicidade”, sinal de que é “possível quebrar o ciclo de pobreza”.
 
Maria critica o governo do Bangladesh por criar entraves ao trabalho desenvolvido. Ao Expressões Lusitanas, Maria conta que, apesar de trabalhar naquele país há quase cinco anos, ainda tem dificuldades em obter o visto.
 
Relata ainda que para conseguir um visto tem de apanhar um avião para Paris para entrar em contacto com a embaixada do Bangladesh na capital francesa.
 
Maria desabafa que, para o governo do Bangladesh, a pobreza não é vista como uma prioridade.
 
"Eles já estão habituados à pobreza e se aumentarmos a qualidade de vida dos pobres, isso significa que a qualidade de vida deles diminui", remata.
 
 
Para o futuro, Maria Conceição já tem ideias e projectos. Gostava de ter a oportunidade de abrir um projecto de solidariedade no Brasil para tomar conta das crianças das favelas.
 
No ano passado foi distinguida com o Prémio Mulher Inovação da União Europeia. Agora ganha o reconhecimento nos Emirados Árabes Unidos (EAU), ao ser distinguida pela revista “Emirates Woman” com o Prémio Mulher do Ano.
 
Maria diz que faz aquilo que faz por "paixão" e "não para receber prémios". Estes, os prémios, são importantes para reunir patrocinadores e apoiantes desta causa.
 
Daniel Pinto Lopes

 



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